Graduado em Geologia pela Universidade de Fortaleza, tendo atuado
representante estudantil junto ao órgão máximo da universidade em dois mandatos
consecutivos; alcançou o mestrado em Geologia Regional pela Universidade Federal
do Rio de Janeiro, doutorado em Ciências Naturais pela Universidade de
Freiburg-Alemanha (1993) e pós-doutorado pela Universidade do Kansas
(USA).
Foi Diretor do Centro de Geologia Eschwege do Instituto de
Geociências da UFMG, representando então o Centro na Congregação do Instituto
de Geociências da UFMG. Diretor da Faculdade de Ciências Agrárias da
FAFEID/UFVJM, de 2002 a 2006, tendo assento no Colegiado Superior da
Instituição. Reitor da UFVJM desde 01 de agosto de 2007 .
Em seu segundo mandato o professor Pedro Angelo fala sobre o
processo de expansão da UFVJM; faz um relato sobre o processo de criação e
implantação do curso de Medicina e ressalta a importância da presença da
universidade em Diamantina e no Vale do Jequitinhonha.
Passadiço Virtual: Como o senhor avalia o atual estágio de
desenvolvimento da UFVJM?
Quais os principais desafios e dificuldades da universidade nesse
momento?
Professor Pedro Angelo:
O nosso estágio
de desenvolvimento é muito especial, pois combina a consolidação de vários
cursos com a expansão da instituição.
A UFVJM oferece atualmente 32
cursos de graduação e em curto prazo alcançaremos a marca de 44 cursos. Dos atuais
32 cursos, 10 não atingiram ainda a maturidade, ou seja, não formaram turmas,
convivendo com cursos implantados em 2006 e em 2002, sem esquecermos-nos do
curso de Odontologia, fundado em 1953, e o de Enfermagem, que teve o seu
advento em 1997.
A pós-graduação stricto sensu cresce de
forma exponencial e atualmente a Instituição oferece 11 cursos de mestrado e 2
de doutorado. Também já contamos com 10 centros de pesquisa devidamente
equipados e a extensão amplia cada vez mais a integração UFVJM/Comunidades dos
Vales do Jequitinhonha e Mucuri.
Por outro lado, estão em fase de
implantação 2 novos campi nas cidades de Janaúba e Unaí, cada campus recebendo
5 cursos de graduação a partir do segundo semestre de 2013 ou do primeiro
semestre de 2014. Ademais, atendendo ao projeto de governo de interiorização do
ensino de medicina no Brasil, a UFVJM acolheu, na reunião de seu Conselho
Universitário em 06/07/2012, a proposta de implantação de 2 cursos de medicina,
sendo um em Diamantina e outro em Teófilo Otoni. Essa situação, por si,
representa um desafio para a gestão, mas, sobretudo, para a Instituição que,
sem abrir mão da qualidade, assume a responsabilidade de estabelecer ensino
superior público de qualidade em territórios da metade norte do Estado de Minas
Gerais. Certamente representa uma tarefa penosa, mas por ser virtuosa, as
dificuldades e obstáculos serão desafios para superação pelo esforço e
perseverança. A repercussão socioeconômica e política da interiorização do
ensino superior público vale superar qualquer desafio e faz aflorar o espírito
público de membros da academia e da sociedade na consecução de projeto tão
virtuoso. O que se pronuncia para nossa Instituição, no meu entendimento, é uma
dádiva, mesmo considerando o tamanho da tarefa, que carrega consigo uma missão
para construirmos um futuro melhor para o povo brasileiro, em especial para as
populações da parte setentrional de Minas Gerais.
Passadiço Virtual: Como está processo de expansão da UFVJM para as
cidades de Janaúba e Unaí? Qual ao significado dessa expansão para a
universidade?
Professor Pedro Angelo: Estamos
recebendo terrenos, por doação, para a implantação desses 2 campi. No caso de
Unaí, inclui uma Fazenda de 75 hectares para as aulas e atividades de pesquisa
no âmbito das ciências agrárias. O plano diretor físico dos campi está em fase
final de elaboração, enquanto os projetos arquitetônicos de vários prédios dos
novos campi estão em elaboração e serão licitados ainda em 2012 para início das
obras no inicio de 2013, que somarão investimentos da ordem de 13 milhões de
reais por campi no primeiro ano. Cabe salientar que a escolha dos cursos foi
amplamente debatida em audiências públicas com as comunidades do norte e
noroeste de Minas. O significado da expansão da universidade no contexto da
nação foi mencionado na resposta anterior. Se focarmos sob o prisma da própria
Instituição, ressalta-se, a priori, a agregação de competências e o ganho da
diversidade trazida pelos novos cursos. A interação da competência e da
diversidade resulta em uma maior capilaridade do conhecimento e a potencialização
de produção acadêmica pela nucleação de saberes, que inclui a sabedoria dos
povos de cada região onde se acha inserida a universidade. Pode-se destacar
ainda como um valor potencial com a multiplicação de campus, a competitividade
sadia entre grupos, cursos e campus da instituição.
Passadiço Virtual: O processo de implantação
desses campi provocou uma grande mobilização da sociedade do
Vale do Jequitinhonha na luta pela expansão da UFVJM para a nossa região.
Afinal, quais as verdadeiras perspectivas de que isso ocorra nos próximos anos?
Professor Pedro Angelo: O movimento “a UFVJM é nossa” marca um novo
tempo para o Vale do Jequitinhonha, “um novo tempo político”. Da passividade e
autocomiseração histórica passou a defender o que é seu de direito, passou a
reivindicar o investimento qualificado em seu território. É um começo, mas
acena de fato para um novo tempo e espero que seja amadurecido e ampliado no
escopo de potencializar a conscientização para escolha dos governantes e
representantes parlamentares, estes para promoverem a intermediação no sentido
da implantação de políticas públicas e não aquelas de caráter pessoal ou
personalista, e aqueles para o exercício de gestão pública qualificada. O
ensino superior público chegou ao Brasil, finalmente, depois de mais de 500 do
seu descobrimento. Sim, porque o que aí estava servia fundamentalmente às
elites, chegando de fato para quase todos com a expansão e interiorização
promovida nos últimos 10 anos. O processo de expansão não terminou, existem
ainda muitos vales do Jequitinhonha Brasil afora como territórios vazios na
oferta de ensino superior público. A expansão do ensino superior público e
gratuito deve ser do tamanho do Brasil, do tamanho da sua riqueza e do tamanho
da sua vontade.
Passadiço Virtual: Muito tem se falado sobre
o Curso de Medicina da UFVJM, gerando muita expectativa e especulações sobre a
sua criação. Enfim, o que realmente temos de concreto sobre esse assunto?
Quando começa o curso? Quantas vagas serão ofertadas? Onde o curso funcionará?
Como será o processo de seleção dos alunos?
Professor Pedro Angelo: Como mencionado anteriormente, serão dois
cursos: um no Campus de Diamantina e outro no Campus de Teófilo Otoni, cada
curso ofertando 60 vagas por ano (30 por semestre). A seleção será feita
conforme os demais cursos da UFVJM, ou seja, através do ENEM e do SASI (sistema
de seleção seriada). Pelo SASI são ofertadas 50% das vagas, das quais 60% para
estudantes oriundos de escolas públicas e como é aplicado exclusivamente em cidades
dos vales do Jequitinhonha e Mucuri e do Norte e Noroeste de Minas (e algumas
cidades do entrono), potencializa o ingresso de estudantes dos nossos
territórios. A preparação do curso de medicina para o Campus de Diamantina vem
sendo feita há 3 anos e, por isso, temos condições de iniciá-lo em 2013. O
nosso campus de Teófilo Otoni não tem nenhuma estrutura de cursos da área
médica ou de saúde e como a autorização para a implantação do curso nesse
campus veio recentemente, temos um longo e ardoroso trabalho pela frente até
conseguirmos estruturar a universidade e os hospitais da cidade para acolher o
curso de medicina e, por isso, não se vislumbra qualquer possibilidade de
iniciá-lo antes de 2014.
Passadiço Virtual: O ditado popular diz que
filho feio não tem pai. Mas no caso do Curso de Medicina da UFVJM a situação é
totalmente inversa porque tem muitos querendo ser pai da criança. Tem se
tornado muito comum, principalmente em ano eleitoral, o surgimento de políticos
que se autoproclamam como verdadeiros pais dessa criança. Enfim, como foi o
processo de criação do Curso de Medicina da UFVJM? Quem são os verdadeiros
responsáveis pela sua implantação?
Professor Pedro Angelo: Em última análise, a criação dos cursos de
medicina da UFVJM partiu da iniciativa da Presidenta Dilma de interiorizar, no
contexto de uma melhor distribuição geográfica no território brasileiro, o
ensino superior de medicina no âmbito das universidades federais, pois esses
cursos foram aprovados, de fato, através dos resultados dos levantamentos
pertinentes para atender a interiorização referida. É verdade que alguns
políticos trabalharam para a implantação de cursos de medicina na UFVJM e,
nesse sentido, cabe reportar a iniciativa do Deputado Ademir Camilo que, nos
idos de dezembro de 2007, solicitou autorização formal ao Conselho
Universitário da UFVJM para fazer gestões junto ao MEC e ao próprio governo
federal para viabilizar a implantação de curso de medicina no Campus do Mucuri
da UFVJM. Seu trabalho persistente resultou no acolhimento pelo MEC da
proposta, no entanto, por racionalização de infraestrutura e de competência
instalada, em 2009 foi indicado pela Secretaria de Educação Superior do MEC que
o curso seria implantado no Campus de Diamantina. Muitos deputados federais se
envolveram na disputa pela implantação do curso em um ou no outro campus,
alguns disputando a primazia da iniciativa ou o mérito (senão o privilégio) da
conquista. No aspecto político, talvez pelas tantas mazelas que permeiam o
nosso país e pela herança de uma esdrúxula colonização (assentada em uma
organização cartorial, hereditária e do compadrio), continuamos a conviver com
o imponderável ou, dependendo do prisma da análise, com o inacreditável. Ora,
ora, toda ação política ou operação administrativa que parta de um político
para o benefício de uma comunidade, de uma cidade, de um estado ou do próprio
país deve ser visto, sempre, como a realização de uma obrigação. A investidura
de um cargo púbico, seja de deputado, reitor, governador, prefeito ou ministro assenta-se
no pressuposto do espírito público e da competência para o exercício do cargo
ou função e não como um privilégio de sustentação hereditária ou do exercício
da plutocracia. Se entendermos que a ascensão ao cargo é um privilégio, este
deve ser conquistado pelo mérito da competência e o maior ou menor
reconhecimento do trabalho executado no exercício da função pública deve ser
manifestado pelo público que lhe dá sustentação, sem perdermos de vista, em
nenhum momento, que a competência e a dedicação à causa pública é um
pressuposto e uma obrigação. A implantação desses cursos de medicina
incorpora novos valores à região e à universidade e estabelece uma nova
dimensão para a saúde coletiva das cidades dos territórios e, nessa
perspectiva, tratemos, pois de festejar esse advento e tratemos, muito mais, de
trabalhar para o estabelecimento de cursos de qualidade, com o apoio
indispensável de casas de saúde devidamente adequadas e estruturadas para a
formação qualificada de médicos com perfil voltado à saúde preventiva, à saúde
coletiva, ao fortalecimento e qualificação do SUS, pois antes de médicos,
devemos formar cidadãos cônscios dos seus deveres e dos compromissos com a
população que viabilizou a sua formação acadêmica
Passadiço Virtual: Os impactos da criação e
desenvolvimento da UFVJM na cidade de Diamantina são muito grandes,
principalmente na economia da cidade. Há uma expectativa e um debate intenso
sobre os aspectos positivos e negativos dessa mudança. Como o senhor
avalia essa relação entre a UFVJM e Diamantina? Como fazer essa relação se
desenvolver de forma mais harmônica e benéfica para a comunidade acadêmica e
para o cidadão diamantinense?
Professor Pedro Angelo: Os impactos socioeconômicos decorrentes da
implantação de uma universidade ou de um campus universitário em uma cidade são
visíveis e dimensionáveis, especialmente em cidades menores. A exemplo, a massa
salarial da UFVJM é quase duas vezes superior à massa salarial da prefeitura do
município de Diamantina, refletindo no fortalecimento do comércio e de todos os
serviços correlatos. A demanda de serviços da população acadêmica é também
expressiva, gerando emprego e renda. No entanto, o maior benefício trazido pela
universidade para a sua cidade e região onde se acha inserida é muito mais nobre:
a formação de massa crítica. A qualificação acadêmica sistematizada de pessoas
que vão atuar na mudança da realidade da região, ocupando cargos técnicos,
políticos e de gestão, imprimindo um senso crítico indispensável à organização
social e à estruturação econômica dos territórios. Certamente que a postura pró
ativa do poder público municipal no planejamento da cidade e do município como
um todo será ou seria de fundamental importância para a acomodação do público
que compõe a comunidade acadêmica, minimizando conflitos e tornando a cidade
mais aprazível de forma a fixar esse pessoal que traz expectativas de acesso a
serviços diferenciados e equipamentos de lazer utilizados de hábito nas suas
cidades de origem. O plano diretor de qualquer município de pequeno ou médio
porte que receba um campus de uma universidade federal deve levar em
consideração esse ente como um organismo vivo da cidade, influente nas suas
decisões, inquietante pela sua natureza e virtuoso pelo que produz e promove. O
poder público municipal deve assumir também o papel de intermediador e de
facilitador para estruturar a cidade de acordo com as demandas da instituição e
de seus membros e, por outro lado, deve o pessoal da comunidade acadêmica
comportar-se mais do que um citadino passivo, protagonizando, não apenas quando
demandado, mas, sobretudo por iniciativa própria, a crítica e ações no sentido
da construção de uma sociedade mais organizada, mais humana, em que valoriza os
seus saberes sem preconceitos ou aversões ao inusitado e ao desenvolvimento
científico e tecnológico.