sexta-feira, 29 de junho de 2012


Expansão e Consolidação da UFVJM no Vale do Jequitinhonha
De: Movimento “A UFVJM É NOSSA”
Para: Conselho Universitário da UFVJM
Assunto: Propostas ao CONSU


      O Movimento “Ä UFVJM é nossa!” reafirma a sua adesão aos princípios que norteiam as universidades públicas no momento em que estas ainda vivenciam o seu complexo processo de reformulação.Tais princípios asseveram que as universidades públicas manterão a sua  autonomia institucional destacando que esta se fará acompanhar pelo compromisso social.Anseiam a ética e a pluralidade;reafirmam a gratuidade do ensino público.Seus horizontes buscam a qualidade acadêmica ambientada numa gestão democrática e transparente,além de prezar pela indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.Por fim ,mas não menos importante , pretendem uma articulação com a sociedade .Entretanto,o que são princípios senão uma carta de intenções? E, como tal, sua prática efetiva dependerá de subjetividades implicadas nas relações sociais e políticas. São estes princípios, elencados pela própria universidade, que norteiam as propostas dos integrantes movimento      “A UFVJM é nossa!”,os quais ,na condição de sujeitos políticos ,apresentam-nas ao CONSU.

1 Articulação com a sociedade :como instituição de imenso potencial de influência social e política,campo fértil aos desejos de interferências políticas partidárias ,a universidade brasileira ao longo de sua história empreendeu dura luta para conquistar sua autonomia.Tal autonomia não se limitou apenas á questão orçamentária ,mas,objetivou se manter distante dos interesses políticos menores.Entretanto,autonomia universitária não se confunde com a negação de sua condição de ente público e,sendo assim, ela deve buscar meios efetivos de interação com a sociedade à qual deve bem servir.Neste sentido,propõem se que os canais de comunicação entre UFVJM e Jequitinhonhenses sejam ampliados,o que atualmente é perfeitamente possível dado o avanço tecnológico nesta área .Nesta mesma ótica ,propõe-se ainda a ampliação de assentos no CONSU para a comunidade externa de modo a contemplar representação das três microrregiões do Jequitinhonha (Alto,Médio e Baixo).A defesa desta proposta se fundamenta no crença  de que uma gestão democrática e transparente de uma instituição pública deve se pautar pelo acolhimento de sua comunidade na condução do seu destino..

2 Os princípios acima arrolados anunciam a intenção do compromisso social.Tratando-se do Vale do Jequitinhonha,a aplicação deste princípio se torna tão necessário quanto urgente.Afinal,segundo Ralfo Mattos(2009) residem 730 809 mil habitantes no Vale ,os quais se encontram distribuídos em seus 79.000 km quadrados.Deste modo,os Jequitinhonheses são muitos embora dispersos em suas três microrregiões geográficas,o que não impede que sejam realizadas constantes trocas sociais entre as mesmas.Umas dependem das outras,uma circunstância que motiva a proposta seguinte: instalação de mais 3 pólos da UFVJM para atendimento dos Jequitinhonhenses que,ressalte-se, são também brasileiros.

O Médio Jequitinhonha, com seus 18.509,30 Km² e 19 municípios e 287.396 habitantes (www.mda.gov.br) por ser o mais populoso, distante da sede da Universidade e de quaisquer outras, acumula entraves ao seu desenvolvimento, sofrendo históricas perdas populacionais. Trata-se de uma sub-região de baixo crescimento econômico, aridez climática e terras inférteis, fatores que dificultam o seu crescimento econômico, exigindo que este seja induzido por investimentos estatais compatíveis ä sua realidades social e geomorfológica,mas,sobretudo,empreendimentos de natureza sustentável.Neste sentido,um pólo universitário fará toda diferença.Por estas razões, o Médio Jequitinhonha requer atendimento do MEC em caráter de urgência.

O Alto Jequitinhonha agrega o maior número de cidades – 20- e possui uma população de 270.516 distribuídos numa área de 19.578,30 Km². Possui as cidades mais populosas. Entretanto, a longa distância as separam de Diamantina faz com que estas se apóiem nas cidades mais próximas, criando pólos microrregionais,situação das cidades de Capelinha e Minas Novas ,ambas sediadas em torno de 250-300 kms de distância de Diamantina,Montes Claros ou Araçuaí .Além disso,as cidades do Vale do Mucuri também realizam trocas sociais e comerciais constantemente com o Alto Jequitinhonha,caso por exemplo,de Água Boa, Santa Maria do Suacui ,Malacacheta,etc.Um pólo universitário nesta sub-região atenderia, por certo,as populações circunvizinhas que conformam o Mucuri ,as quais apresentam quadro social similar ao que se verifica no Jequitinhonha.No que tange ao Baixo Jequitinhonha registra-se que este possui uma área de 15.504,40 Km² compondo-se por 16 municípios nos quais habitam 179.711 habitantes. Para Mattos (2009), esta sub-região é economicamente a mais “deprimida”, com perdas populacionais muito importantes. Assim, um pólo universitário no Baixo Jequitinhonha, alem de dinamizar a sua economia, poderia ainda atender municipios do Jequitinhonha baiano e capixaba.

Na solicitação por 3 pólos,leva-se em conta ainda a prioridade governamental de ampliar o acesso dos brasileiros à educação superior dado que,segundo o INEP :”nosso sistema de ensino superior é pouco acessível, pois apenas 9% da população com idade entre 18 e 24 anos freqüenta algum curso superior e (2) há um crescimento exponencial do ensino médio – é a de que existe um grande número de vagas ociosas nas instituições privadas de ensino superior, uma ociosidade da ordem de 37,5% .(censo do INEP (2002).Parte dos potenciais alunos ainda sem acesso à educação superior vivem no Vale do Jequitinhonha,uma circunstância que requer intervenção do Estado na supressão da inacessibilidade á educação superior,um bem humano e direito de todos os brasileiros.Alem disso,ressalte-se,o quadro em análise refere-se a filhos de famílias que se encontram inviabilizadas de manterem filhos estudando seja em Belo Horizonte,Diamantina ou Teófilo Otoni .A possibilidade de pólo universitário próximo da cidade em que vive sua família reduz custos para a família e Estado.

3 Ainda no âmbito do princípio relativo ao compromisso social adotado pela universidade publica brasileira há que se realçar sua habilidade para tratar as dificuldades financeiras enfrentadas por famílias despossuídas que mantêm filhos estudando em cidades que não as de origem e /ou distantes delas. Desta forma, a assistência estudantil se torna um condicionante de peso no alcance de outro importante princípio que é o da qualidade de ensino. Se se refere ao Vale do Jequitinhonha, este compromisso se faz indispensável. Assim, a proposta é que UFVJM,quando for o caso, envide seus melhores esforços para assegurar o atendimento das necessidades mínimas, tais como moradia e restaurante universitário. Deve-se garantir essas demandas em qualquer projeto de expansão de um IFES, posto que estas versam sobre prioridades humanas (moradia e alimentação).Nem por isso, a assistência estudantil deve se ater pura e simplesmente a elas e,portanto,necessário se faz que ,a partir delas,novas medidas sejam escalonadas de modo a aperfeiçoar o atendimento discente .


4 O Vale do Jequitinhonha e adjacências é uma região singular em vários aspectos, conforme consta em documento produzido para analise do CONSU. Embora singular,ele é ,ao mesmo tempo,plural porque já não mais possível ignorar as conseqüências sociais e cobranças de um mundo globalizado.Assim,a realidade local deverá fundamentar a concepção dos projetos pedagógicos que ofertem cursos que atendam as necessidades dos grupos sociais do Jequitinhonha.Entretanto,que a realidade e “vocação “ locais não pesem mais do que as exigências de uma formação de cidadãos /cidadãs – ou do ser social no sentido lukacsiano do termo, sujeitos sociais portadores da capacidade de elaborar projetos que contribuam para um Brasil e Jequitinhonha mais justo.Por outro lado,o mundo produtivo que a tudo penetra- e a universidade não lhe ficou imune – e considerando a particularidade da região ,a escolha se cursos a serem ofertados  deverá ser objeto de reflexão e adequação ao ambiente.Assim,cursos das áreas de ciências exatas serão bem vindos,assim como das ciências humanas, sociais , ciências da saúde ,bem como àqueles vinculados á telemática e ciências da informação.O propósito em sugerir a diversidade de campos disciplinares norteia-se pela imperiosa necessidade de  autonomia almejada pelo Vale que ao formar profissionais das mais diversas áreas em seu solo poder-se-á assegurar respostas positivas ás demandas dos setores produtivos ,tecnológicos e de serviços acusadas pela região em debate.

Por oportuno,o grupo registra que acompanha os projetos de educação a distância(EAD) dirigidos ao Vale do Jequitinhonha.A esse respeito guardam-se receios quanto á viabilidade do sistema na região  por entender que, para que esta modalidade de ensino seja efetiva,além de rigor disciplinar,exige-se que haja acesso ao aparato e recursos tecnológicos modernos que a EAD exige. Como se sabe, no Brasil continental, muitos são os excluídos do universo digital. O Vale do Jequitinhonha, integrante do Brasil profundo ,ainda caminha a passos lentos para se inserir satisfatoriamente nesta esfera.Enquanto o Estado brasileiro não for suficientemente capaz de incluir contingentes expressivos no mundo digital,a EAD será ,mais uma vez,ineficaz quanto aos fins pretendidos: educação de qualidade acessível a todos.


 5 As expectativas em torno do pressuposto referido ä  indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão são as melhores posto que nele se depreende a intencao de romper com paradigmas com tayloristas que ,caro o mundo produtivo,apresenta como graves conseqüências a desintegração do trabalho coletivo,este,por sua vez, trona-se absolutamente necessário ao mundo acadêmico.Afinal,pesquisa-ensino-extensao são processos interdependentes,seccioná-los lhes retira toda a potencialidade de sua essência.Compreende-se que este tripé reafirma o compromisso social assumido pela universidade pública ,uma vez que enquanto fundamento metodológico na construção do conhecimento,a tríade estabelecida deve ter como principal compromisso desenvolver um ensino dinâmico, que acompanhe as transformações na área do conhecimento e mantenha permanente diálogo com a sociedade,tornando produtiva a integração que se pretende.Nesse trinômio,tanto a pesquisa,como ensino e extensão devem se constituir como principal função dos professorese agentes envolvidos no processo educativo .Alem disso,juntos,pesquisa-ensino-extensáo constituem elos fundamentais entre academia e sociedade, além de dar retorno à sociedade do investimento aplicado à sua construção e manutenção (PROUVOT, 2006). Reafirma, ainda, que a pesquisa não é aquela produzida somente em laboratórios ou bibliotecas, mas também no diálogo e embate diário com a comunidade.Deste modo,a proposta do movimento é que as ações de extensão sejam dirigidas äs cidades do Vale do Jequitinhonha como um todo,cujos temas sejam amplos e capazes de realizar mudanças sociais das quais o Vale tanto necessita.Ainda sob este prisma ,sugere-se que haja estágios dos alunos no próprio território do Vale ,de modo que a universidade incentive  seus alunos a intervir positivamente sobre a grave questão social apresentada pela região .

6 Por décadas a fio,o Ministério da Educação atuou sob o signo da indiferença quanto ao reconhecimento da divida social do processo de formação escolar e ensino superior com as camadas sociais menos favorecidas.Apenas recentemente é que este tema foi objeto de atenção do referido organismo,ocasião em que o governo Luis Inácio Lula da Silva buscou soluções,dentro da ordem constitucional ,de modo a favorecer o acesso äs famílias mais pobres ä educação superior.Foram implementadas as cotas sociais,o FIES,ENEM,PROUNI,este ultimo questionável dado o grau de privatização que nele se encerra.Ainda assim, a ruptura com o elitismo da educação superior tem sido um dos maiores trunfos do referido governo.Com esta breve reflexão ,o grupo inicia o registro de sua ultima e importante proposta com uma indagação : como alcançar a meta de estudar os nascidos no Jequitinhonha ,população de maioria miscigenada e de reduzidas condições econômicas? Com efeito, vê-se que brasileiros de todos os rincões buscam as Universidades Federais onde quer que elas estejam. Deste modo, alunos nascidos em regiões aquinhoadas pelo planejamento governamental e, conseqüentemente com oportunidades inimagináveis pelos Jequitinhonhenses, terão assentos garantidos na UFVJM.Com eles concorrerão os filhos do Jequitinhonha.Como tornar mais justa esta concorrência ?Procedente sublinhar que a luta pelos pólos da UFVJM no território do Vale se justifica por muitas razões. Entretanto, um motivo importante é a autonomia do Vale em efetivar suas políticas públicas ou empreendimentos produtivos com profissionais acostumados á singularidade da vida cotidiana do Vale, de modo a não depender de profissionais “flutuantes”. Esta questão estaria mais bem assegurada se a Universidade se dedicasse aos que nasceram no vale e nele querem ficar, trabalhar e contribuir para com a melhoria de seus indicadores sociais. Sugerimos que a UFVJM, dentro da legalidade, estude meios de contemplar candidatos do Jequitinhonha.Que não se ouça em tal sugestão tons xenofóbicos .Ninguém duvida da hospitalidade e solidariedade dos Jequitinhonhenses.Apenas reconhece-se um problema que é real e merece debate e busca de soluções coletivamente.

 Por Maria do Rosário Sampaio
Texto formulado em setembro/2011 e entregue à Reitoria da UFVJM em 07 /10/2011.